sexta-feira, 14 de junho de 2013

Dissociação


Houve um dia em que me apaixonei. Estranhamente, intensamente, uma paixão de um tipo que eu ainda não tinha vivenciado: uma paixão que chamei de "amor na alma". Devo antes dizer que já me apaixonei muito, infinitas vezes, e que bom! Acho que é uma dádiva, o dom da paixão. Já me apaixonei porque aquele era "o homem mais lindo que eu já tinha visto", outras vezes porque era "o mais inteligente", "o mais divertido", "o mais rebelde" ou ainda porque era "o melhor beijo do mundo". Até já me apaixonei porque era "a maior fé em Deus que eu já vi em um homem". Mas nunca, nunca havia sentido nada assim, nada que se parecesse com o "amor na alma". Era uma espécie de arrebatamento, que me fazia transbordar e parecia não caber em mim. Eu me apaixonei por alguém cujo rosto eu não conhecia pessoalmente, cuja voz sequer eu ouvira, cuja pele eu nunca tinha tocado. Mas que fazia minha alma dançar uma dança suave e forte... 

Uma paixão do tipo "amor na alma" era algo inédito na minha vida, e confesso, uma das coisas mais completas em termos de sentimento espiritual que eu já experimentara. Era como se algo soprasse dentro de mim, e fizesse mover meu espírito. Eu me tornava maior. Uma sensação de ser tocada pelos dizeres do outro e também tocá-lo em recantos profundos e nunca antes descobertos. Sensações. E um "conhecer" o outro sem precisar de explicação. Eu simplesmente o entendia, o percebia, o sabia em nuances íntimas e que poucos alcançavam. 

Mas aí, como toda história digna de quem é dada a poesias, não fui correspondida. Primeiro, fiquei muito triste. Depois, chorei e comecei a extravasar minha dor. Escrevi uns poemas melancólicos e outros utópicos, todos guardados no caderno. E feito menina triste, minha alma ficou pelos cantos. Pelos cantos de mim. E eu me senti incompleta, vazia, partida ao meio. Uma alma sem corpo, um corpo sem alma, completa dissociação do meu ser. Eu andei pelo mundo sem sopro de vida naqueles dias... 

Mas aí, o tempo, esse garotinho mimado, que só faz o que quer e quando bem lhe entende, resolveu agir, e rápido, sobre a minha razão. Ele me disse que era preciso explicar as coisas para minha alma. Ele me mostrou que eu podia perder a paixão que tive. Era triste, mas eu podia perder aquilo tudo, posto que nunca tive de fato o amor do outro. Logo, de fato não era uma perda. O que eu não podia, não mesmo, era me perder de mim... E ele tinha razão...

Então falei pra minha alma que eu, o meu Eu-Corpo, precisava de toque na pele, de beijo na boca, de ouvir palavras doces feitas para mim e para Nós-Corpo-e-Alma. Contei para ela, minha alma irremediavelmente triste, que paixão na alma é raro sim, mas que Eu-Corpo e Eu-Alma somos uma coisa só, somos o Eu-Mulher. E que o Eu-Mulher precisa viver um amor que nos torne uma só, alma e corpo, uma mulher feliz e amada. Falei também que ela guardasse na lembrança, com carinho, aquele sentimento único que ela, o meu Eu-Alma, foi capaz de sentir. Porque talvez não aconteça nunca mais...

(Paro aqui, ao escrever, e respiro. Um quase-suspiro ao lembrar daquele arrebatamento que fazia ventar a minha alma e movê-la feito bailarina... Dança flamenca, intensa, flamejando de paixão. Pausa... Preciso de ar... Ainda.). Mas, bem, talvez não aconteça nunca mais, outra vez, esse amor na alma. Essa paixão estranha e linda, é coisa de fazer feliz alguém só por tê-lo experimentado. Não tem cara de coisa que acontece de novo. Mas só talvez. 

E surpresa, percebi que minha alma entendeu. E voltou a viver alegrinha, pois alegria e felicidade são sentimentos distintos. E agora, pelos caminhos tortos da vida, minha alma segue, certa de que tudo está no seu lugar, como deveria estar. Ela me fala todos os dias que sente falta. Daquele sopro. Mas sente a gratidão de quem sabe que experimentou uma preciosidade. E mais: vivemos as duas novamente unidas, sem sopro, sem arrebatamentos, mas com a certeza de que a vida é repleta de riquezas. Que poderão acontecer de outra forma, vestida com outra roupa, com um outro tipo de amar. Afinal, muitas são as formas de amar. Eu-mulher está pronta. Que venha o próximo presente. 

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