quinta-feira, 16 de maio de 2013

Alice no País da Solidão


Feito Alice, caí. É bem verdade que caio sempre. Já caí até na rua México. E aquele tombo na rua foi digno da cantiga Teresinha de Jesus: fui acudida por muitos cavalheiros, só que no meu caso, nenhum deles com chapéu na mão. Mas essa é uma história sobre como caí feito Alice. Aquela personagenzinha instigante daquela estória nada infantil. Ou antes, tão infantil que buscamos um motivo para que não seja. 

Pois caí. Em um buraco muito fundo. Fui caindo tão lentamente que esqueci que caía, pensei que vivia. Enganos diários de uma vida cheia de tapetes puxados. Vejam bem, nem são tão puxados assim, mas preciso dar ênfase ao drama. E peço ao leitor que entenda, faço uso de recursos textuais. E sendo assim, caindo e pensando que vivia, entrei no buraco do País da Solidão, onde nenhuma maravilha habita.

Quando cheguei lá, um chá era servido. Não me lembro bem se Alice foi chegando e tomando chá, mas o país em que ela caiu era diferente do meu. E aqui, na minha estória, mal cheguei, dei de cara com uma mesa de chá. Não fui convidada para sentar-me junto deles. Mas não sei porque, me senti convidada. E pensei que poderia me sentar assim mesmo, ser sociável, apesar de não haver um convite formal. Não fui bem recebida, apesar de, no início, eu entender que tudo estava bem. Descobri com o tempo que, lá, naquele lugar, à mesa do chá, as pessoas não eram de fato amigáveis. Ou antes, eram desconfiadas. E não há amizade que consiga sobreviver em ambiente hostil. Poucas coisas sobrevivem, na verdade, em ambientes assim. E então, não se fazem laços. Um lugar de águas rasas. Sei que não me importei. Fiquei triste, mas no fundo, não dei importância, porque gosto mesmo é de café. E não, não serviam café ali.

Fui embora. E logo adiante, um coelho correu atrás de mim, puxando uma conversa. Eu não queria conversar com coelhos. Nem quero. Não ainda. E talvez nunca queira. Prefiro os coelhos trazendo ovos na Páscoa. Queria conversar com gente. Gente humana e dotada de doçura na alma. Deixei o coelho pra lá. Fui em frente, porque sou aquele tipo de gente que segue em frente. E seguindo, encontrei cartas que falavam. Reis, Valetes, Damas, um baralho de uma vida embaralhada se abriu à minha frente. Não sei, até agora, quem dava as cartas ali. Sei que eu não quis jogar. Não gosto do jogo pelo jogo. Gosto de brincar. Com alegria e leveza. 

E assim, nesse país que surgiu depois do buraco estranho, me vi sozinha. Sozinha num mundo em que eu nada entendia, em que os meus sentidos percebiam o que vai na sutileza, mas ninguém, ninguém mais percebia. E sem ter com quem compartilhar meus mais íntimos pensamentos, meus ideais mais profundos, minha nota singela de poesia diária, senti a imensidão daquele país. Um lugar estranho em que sentir é coisa que causa aversão. Assim como causa espanto a aproximação para um diálogo sem pretensões. E o que dizer sobre segurar na mão do outro, um toque puro somente para perder o medo? Um mundo esquisito, que não gostei de conhecer. De onde saí machucada, escoriações nem tão leves como eu faço agora supor. Mas um mundo que fortalece. Que faz crescer a percepção. E que só fez aumentar o meu amor pela vida.

Como eu saí do buraco é uma estória que não tenho vontade de contar agora. Mas se você quiser, pode visitar o site da fotógrafa Elena Kalis. Ela fez um ensaio fotográfico belíssimo que se chama Alice in Waterland. E que tem tudo a ver com esse mar. E cujas fotos ilustrariam facilmente esse post, não fosse o fato de ela ter fotografado Alice e não a mim. 

Não importa isso agora. O que penso nesse momento é em quantas vezes somos feito Alice... Visitamos países fantásticos, os mais diversos... E se não há um País das Maravilhas, elas, as maravilhas, estão espalhadas por aí. E se em alguns instantes de nossa vida, breves ou longos, caímos no País da Solidão, sempre é possível ir embora... E levar consigo as lições apreendidas e antes inimagináveis, que cada lugar tem para nos mostrar. O importante é seguir em frente. Existem mundos muito legais esperando para serem visitados.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigada pela visita!
Responderei ao seu comentário em seu respectivo blog.
Até mais!