sábado, 10 de novembro de 2012

O espelho que me vê


Penso coisas estranhas às vezes. Tá bom, quase sempre. Mas já me acostumei com isso. E quem me quer bem, que se acostume também. E nesse aspecto, saltou-me uma observação outro dia. Ontem, pra ser exata. Olhei-me no espelho e não me reconheci. Que susto!

Precisava fazer o cabelo e fui no cara indicado. Ele é bom. Transforma cabelos como poucos. As mulheres entram lá e saem loiras lindíssimas. Mas não fui lá para isso. Deixei bem claro: não quero ficar loira, não sou loira. Porque acho que loira não é uma questão de estar, mas de ser. Tem que ter alma de loira. E sendo muito franca, me gosto com cabelos castanhos. Embora minha alma seja ruiva. e meus cabelos nunca fiquem castanhos completamente. Vão ficando vermelhos, vermelhos, vermelhos, em completa obediência à minha alma. Vou lá, e pinto de castanho de novo. Eterna negociação, ninguém se rende. Até agora, pelo menos.

Pois fui ao cabeleireiro. Mudar por fora, pois que mudei por dentro. Mudo sempre. E acho que todo mundo devia mudar sempre, se é que posso opinar sobre a vida de 'todo mundo'. Mas ele me disse que ia fazer umas mechas, para dar uma 'iluminada'. Bem pouquinho, acrescentou. Fim do chá de cadeira e eis que me olhei no espelho e não me vi. O espelho sabe também que não sou eu. Estou completamente loira. Socorro! 

Socorro? Mudei! Sou loira sem querer. Que 'iluminada' é essa, que me deixa loira? Socorro! E agora? Tenho que acompanhar. Portanto, mudarei tudo também. Pronto. Troquei a foto do perfil. Resolvi mostrar minhas pernas para o alto. Não sei o que fazer. Logo, quando é assim, já disse, não faço nada. Portanto, continuo loira. E o espelho que me vê começou a falar pra mim. Os espelhos falam. Não escutamos geralmente, mas falam.

Costumamos acreditar que nos vemos no espelho. Pode ser que seja o contrário: é o espelho que nos vê.  E fala. Pensar isso é estranho? Esse espelho, quando me viu, me disse que a morte é inerente à vida. E que ciclos são dotados de fim. E que depois do fim, tem um novo começo. Morreu. Morte do contraste da pele branca com o cabelo escuro, que eu tanto gostava. Nasceu uma loira. Meio contra minha vontade, mas não dá para fazer outra química agora no cabelo. O que fazer? Ficou bonito. Estou bonita. Muito diferente, praticamente não sou eu. Mas ficou bom.

E ainda sou eu que habito no fundo do espelho de meus olhos. O espelho que agora me vê, me diz que é hora de aceitar. Curtir a situação. Transformar. Brincar. Brincar de Marilyn Monroe, Brigitte Bardot, Sharon Stone, Uma Thurman, Cameron Diaz. Não. Não estou loira platinada, não. Mas talvez, só talvez, eu  goste de encarnar a personagem fatal. Primeiro, preciso me reconhecer no espelho. Sou eu mesma, sim. E a vida, me pregou uma peça. Daquelas aparentemente tolas, mas repleta de ensinamentos surpreendentes. A impermanência cada vez mais se faz presente. Assume formas que jamais pensei. Aceito o convite. Vou brincar. Mas será que posso começar mais comportada, tipo Reese Whiterspoon?

Um comentário:

  1. Maravilhoso! Adorarei estrear o blog da neurofocus várias histórias com esse texto tão autêntico e poético.

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