domingo, 28 de outubro de 2012

Drenagens e condensações - palavras que escorrem líquidas, emoções que se aglutinam sólidas



Um rasgo violento e profundo. Um corte dilacerante. Enorme. Tá bem, digamos que um corte da sínfise púbica até o processo xifóide. Só para dar trabalho e fazer você procurar no google o que é isso. Se você sabe o que é, entenda que visualizo tudo não como uma ferida cirúrgica, certinha. A incisão é irregular, de bordas e aparência tão violentas quanto o golpe que lhe originou. Profunda, enorme, de fazer sangrar até a última gota de emoção que porventura exista naquela ser, no caso eu. Porque sangrar sangue é muito óbvio. Consegue visualizar? Essa imagem é a minha transmutação do impacto da história dessa mocinha-meio-do-avesso-vilã-pela-metade, a anti-heroína Lisbeth Salander, em mim.

Há meses essa personagem me intriga. Misto de covardia e coragem, repleta de antagonismos que se complementam. Sei que todo mundo já escreveu sobre ela. E não vou aqui desfilar análises sobre a personagem, pois que não tenho conhecimento para tal e nem intenção de fazê-lo. Vou escrever o que ninguém ainda disse: o que eu senti. E senti que Lisbeth é repleta de defeitos, de imoralidades, abusa de comportamentos condenáveis. E ao mesmo tempo é uma alma provida de compaixão e sede de justiça. Mas junta isso a uma completa falta de limites para agir em busca do seu objetivo. E esbarra no antigo "os fins justificam os meios".

Lembro de quando ouvi essa frase pela primeira vez. É aí que entro eu, que não faço parte da história, mas desde já viro personagem também. Eu tinha 13 anos, estava no antigo "segundo grau" (sou desse tempo aí, rs!). Era adiantada no colégio, mas óbvio, minha inteligência para filosofias e afins empacou na frase, limitada pela pouca idade. Fiquei tão decepcionada de alguém ser estudado por ter dito esta frase absurda, que cheguei em casa e fui conversar com a minha mãe. Como? Como podia ser que os fins justificassem os meios? E se os meios fossem "errados"? Naquela época, eu ainda não tinha a percepção de que, às vezes, o limite entre o certo e o errado, é uma linha tênue e mal-definida. Pensava na frase e não a entendia. Era então mais importante conseguir um bom resultado, mesmo que de maneira incorreta, trapaceando? Eu não aceitava, não concordava, não alcançava.

Ainda hoje não concordo. Mas tenho a compreensão de que, quando somos fracos é que temos a oportunidade de transpor o limite da fragilidade e nos tornarmos força. É quando somos diminuídos que podemos nos fazer menor ainda e transcender à pequenez da situação. É quando somos esmagados que podemos nos recompor para compor um novo ser - ou o mesmo ser, outra vez, e perder a chance de deixar nascer um ser diferente. Quando se tem 13 anos não se percebe isso. Mas quando se é adulta e se conhece Lisbeth Salander, é possível refletir sobre os fins que justificam os meios - os meus meios, os seus meios, os meios dela - de fazer o que é possível, o que é preciso, o que se quer, o que seja como for que se apresente, ainda que não seja o que gostaríamos. É possível ter compaixão como a personagem. E munida desta compaixão, perdoá-la por não ser perfeita. E mais que isso, sentir felicidade até, porque ela é heroína e tão imperfeita quanto cada um de nós. E se é assim, também podemos ser, eu e você, heroínas e heróis de nossas próprias histórias.

É nesse contexto que ela e millenium são bem mais que um soco, muito mais que um nocaute, são o tal rasgo dilacerante que falei, que faz sangrar emoção. Tendo tantos defeitos, todo mundo logo se identifica. Ela não causa aquela repulsa que as sacro-santas pessoas causam, pois sendo muito boas não se parecem com ninguém, e acabam sem querer fazendo todo mundo se sentir menor. Odiamos pessoas sacro-santas, essa é a verdade. Uma delas, pelo menos. Outra verdade é que temos medo de odiar, porque não é bom. Outra verdade ainda é que todo mundo se sabe cheio de muito pecado, embora às vezes não sejam pecados tão graves assim, mas ainda são pecados, e quem se importa com eles, embora tendo-os de montão? Ela é gente até não poder mais. E assim, a pessoa se desarma. E quando alguém se desarma, pronto!, automaticamente o outro ganha o jogo, supondo que seja um jogo, e  supondo, neste caso, que o outro seja a personagem fictícia em questão. Eis o que senti e ninguém escreveu. Nada demais. Apenas algo a não deixar dentro de mim.

E tudo isso, no filme, embalado pela música "Would anybody die for me?"...  Resolvi colocar a letra aqui, só pra dar um tom vermelho vivo ao post, já que tudo nasceu da metáfora do rasgo que faz sangrar, que vem dançando em minha mente há tempos... Aproveite e cante baixinho... Espanta os medos, faz drenar e condensar a força que vive dentro da gente.

"Hear me
Hear me now
Restless souls are left on guard
Hearts are burning unpredictable
Are we sinners carry on
Feel the cold to you resistible
No confessions to be made
Just believing all is unprepared
You won't ever hear me crying
Destiny is to be unaware
Silence, quiet now
No one in the crowd
There's no place to be
There's no light to see
Would anybody die for me
Can you hear me
Would anybody die for me
Can you hear me
Hear me
Anybody hear me?
Would anybody die for me?"

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