sábado, 29 de setembro de 2012

O que era



E todo esse tempo era o silêncio.
Mas era a ausência também.
A ausência percebida diariamente.
E que se chamava saudade.
Crescente.
Benevolente.
Condizente.
Com o vazio de tudo o que se fez ao redor.

E todo esse tempo, tanto tempo,
era somente
a vontade.
Sem delongas e sem demoras.
De instante a instante
no compasso das horas
a vontade
do abraço terno
em que cabe
o pequeno gigante
chamado mundo.

E era isso todo esse tempo
e mais um tanto que nem cabe
no espaço de contar.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Sobre meninos e violinos


O menino, na calçada, toca violino.
A multidão apressada, passa.
Há os que se encantam.
Há os que nem veem.
Alheio a isso, ele continua.
E eu penso: enquanto houver meninos e violinos, há esperança.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Cantiga da Natureza


                                               Por onde passo, canta um bem-te-vi.
                                               Borboletas amarelas estão me seguindo.

                                               Eles bem-estão-me-vendo.
                                               E elas? Pensam que sou flor?

                                               Que dia lindo!

domingo, 9 de setembro de 2012

Os hábitos que me fazem ser - 3º capítulo


É incrível como só agora acabo de perceber isso que vou contar. E é a realidade: basta eu ter a idéia de fazer uma série, geralmente com um monte de coisas legais para postar, que imediatamente as idéias todas desaparecem e fico sem saber o que escrever. Das outras duas vezes foi assim. A primeira série até que achei que ficou bem sucedida, "Meus amigos ostras e suas pérolas".  Gostei.

Já a segunda, foi um fiasco, "O óbvio que a vida contém". Eu tinha milhões de coisas para escrever, pensava nisso a toda hora, e foi só começar o primeiro post que... pluft! sumiram todas as idéias. Fuga em massa!

O mesmo aconteceu agora... Quer saber? Séries me delimitam, me fazem escrever dentro de um texto pré-formatado, num modelo para ter uma lacuna preenchida. E eu não suporto a falta de liberdade. Deve ser por isso que travo assim que começo e, de repente, fica muito sem sentido fazer a série. Ah! É isso: decreto que não farei mais série nesse blog porque só funciono sob a livre forma de me expressar. Eis aí um hábito que me faz ser e só por isso, será o último post aqui escrito sob esse título. Eu acho. Porque é bem possível que as idéias voltem todas só porque decretei o fim da série, rs. E então, resolvo que será o 3º capítulo. Já que o futuro, é mesmo uma incógnita... E até que seria interessante algo inacabado por aqui...

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Egos




Egos, egos, egos
insuflados
hiper-inflados
tal qual balão.

Voam alto
e povoam os céus
repletos de estrelas.

Mas que pena...
Não é o céu da Capadócia,
nem de Pasárgada!

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Setembro


Entrou de mansinho, trouxe sol gostosinho e foi abrindo os braços para ser recebido num abraço. Não pediu licença. Nem precisava. Sua postura forte e doce, não faz imposição. Simplesmente acontece. Sem ser necessária nenhuma palavra. Com ele, as cores ficam mais cheia de viço, as flores sorriem em botão e abrem-se, as árvores esticam seus galhos como se estivessem se espreguiçando. É setembro. Outra vez, de novo, mais um. Tempo de encanto e perfume. Tempo de sintonizar na estação da vida. Tempo do desabrochar da natureza.

E quem disse que ser humano também não é natureza? Pois é. A humanidade é uma natureza meio desconectada, meio sem jeito de ser o que é, mas é. Metida, com nariz empinado, tratou logo de se auto-intitular de herdeira do paraíso. E dele se afastou. E com ele não tem sequer identificação. E assim, chega a primavera, vem o dia da árvore, e ninguém sabe nem disso. Eu mesma, que estou aqui bradando toda essa defesa em prol da conexão com o universo, digo que sei o que nem sei mais. Mas justiça seja feita, já soube um dia. Agora sequer me lembro quando é o início da primavera, quando comemoramos o dia da árvore, o que é mesmo o equinócio. Pois o tempo seleciona coisas e, aqui no meu cérebro, escolheu esquecer essa datas, esqueceu saber qual vem primeiro, o que é o quê, e por aí vai.

Resolveu apenas que setembro há de morar para sempre na lembrança como um mês feliz. Isso eu sei muito bem. Um mês de brisa e despertar suave. De encontros com a felicidade, no movimento da ascensão da espiral que é a vida. Mês que aquece o coração e traz com ele a alegria de ter sobrevivido a mais um inverno. Ainda que não tenhamos invernos rigorosos nessa doce terra. Ainda que a questão da sobrevivência não seja mais atravessar o rigor climático com a escassez de uma colheita minguada. Nada disso. Quem atravessou o inverno rigoroso dos tempos da conexão virtual, sabe que não se trata mais de alimento nem de frio. Pelo menos aqui no meu mundo e no seu, que agora lê isso que escrevo. E aqui, nesse mundo, setembro é promessa.

Promessa de vida fora do casulo. Promessa de vôos. Promessa de conquistas. E não interessa se serão vôos rasantes, altos, curtinhos, travessias imensas. O importante é transpor a fronteira. "Que fronteira?", você deve estar perguntando. E eu respondo de maneira nada original, mas com bastante domínio: a fronteira que faz você ser o que você é e te impede de ser quem você gostaria. Tentar, ousar, ascender, pode ser muito bom. E todo o universo, neste momento, fala a mesma linguagem. Uma linguagem antiga, que você esqueceu. Ou nunca soube, porque afinal, humanos não dão bola nenhuma para bobagens como essa. Fato é que o momento é propício. Setembro está aí. E tempo é dinheiro. Embora essa frase soe como um antagonismo completo a tudo que foi dito.