terça-feira, 13 de março de 2012

A primeira voz


A segunda voz não é necessária. Que me perdoem as duplas sertanejas, que me atirem pedras os apreciadores do estilo, mas se a calarmos, não fará falta nenhuma - ó, sim, afetos e apegos, somente. Fora isso à parte, não fará falta. Penso que a voz que se ancora na primeira, e parece por ela carregada no rastro do sucesso, dá até um certo charme e um quê de estilo, que não aprecio, serei verdadeira, mas sua função me parece ser a de adornar. Adorno, sinônimo de enfeite. E enfeite é plus.
 
 
Fundamental mesmo é a primeira voz. E isso vai muito além da fronteira musical, que é mera ilustração. Se posta em silêncio, decreta o fim de um conhecimento instintivo, primitivo, metafísico, não sei definir, nem quero definir nada. Quero só dizer que essa é a voz que realmente interessa. É ela que vem de mansinho, sai direto do coração e  tantas vezes é subjugada, afogada, guilhotinada, no corte mais profundo e agressivo do silêncio imposto. Porque insistimos em submetê-la a um sem fim de análises racionais, a processos construidos.

Começa assim: a bonitinha fica ali, fala, e ninguém a ouve. E aí, ela fala outra vez, e de novo não é escutada. E um dia, de tanto falar e ser sempre ignorada, ela silencia. Cala-se a voz da intuição. E então, quando isso acontece, é como se a música silenciasse dentro de quem não tem essa voz. Silêncio, vazio, vácuo. Total ausência da propagação do som. Mordaça, percepção embotada, morte do "eu" que tudo sabe antes que a consciência processe razões e equações que façam sentido.
 
 
Acho belíssimo esse saber que não obedece à lógica. Ainda me surpreendo cada vez que essa minha primeira voz fala depressa... Quase atropelando, ela me dá uma percepção que não tem precedente e a seguir tudo se concretiza. Outro dia ela disse algo para mim. Em completo desafino, fingi que não ouvi seu conselho. Não a segui! E preciso contar quem estava certa? Quem já sabia tudo antes de tudo?  Quase num paradoxo, essa voz que não segue razão, está sempre coberta dela. Preciso deixar de ser tão racional às vezes. Abrir mais minha mente para ouvi-la.

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