quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Vestido de princesa




Meu excesso de imagens mentais, percepções captadas e emoções transbordantes foram reduzidas ao quase zero. Uma única imagem impregnou meu cérebro e deslocou todas as outras: o vestido de princesa. Rosa. Pink. Tão forte quanto a tragédia. Dentro dele, ninguém. Dentro dele, não mais uma menina. Dentro dele, o vazio provocado pela violência.

Essa vilã ronda nosso mundo, passeia pelas ruas de cada cidade, bate à porta de todos nós. Entra às vezes mesmo sem autorização. E penso que em algumas situações ela é convidada para sentar-se à mesa. Entra com a droga, o álcool, a falta de diálogo, a ignorância, a inveja, o fanatismo religioso, só para citar alguns de seus convíveres. Entra e fica lá, sentada. Assiste TV, espera o momento de atuar em cena.

No caso do vestido de princesa, ainda não se sabe nada, e talvez nunca se venha a saber se foi convite ou se foi invasão mesmo. Mas um ou outro, o estrago está feito. Figurino sem atriz, vida interrompida, alegria abreviada, lágrima por mim derramada, revolta por uma inocência que se foi. Porque a inocência sempre se vai mesmo. Mas é muito triste quando o ser humano se vai com ela...

Meu olhar que assume várias posições, como num set de filmagem, roda o cenário. Toda menina sonha que é princesa. Algumas têm certeza que são. E é lindo quando é assim! Toda menina deveria ser obrigada a ter pais que lhe permitissem brincar de sonhar, uma família abastecida de luz o bastante para que elas não vislumbrassem sombras. Proteção seria um manto sobre o vestido.

E a tal violência, uma ratazana infame, deveria ser devolvida à estória certa, ao submundo dos esgotos e escórias, de excrementos e imundícies, que correm muito abaixo dos pés que calçam sapatinhos infantis de cristal e onde todas as outras ratazanas e bichos nojentos residem. Milhões, milhões de quilômetros distantes da luz do sol e do brilho das estrelas. Longe do perfume das flores e do canto dos pássaros. Dois mundos tão distindos quanto água e óleo. Ao qual nunca deveria ser permitido a tentativa de misturá-los. Assim, meninas continuariam meninas, fadas continuariam sendo madrinhas, vestidos continuariam sendo sonhos, e na pior das hipóteses, à meia noite, carruagens virariam abóboras. Até o final feliz. Sem desfechos trágicos.

2 comentários:

  1. Comecei a ler seu blog. Muito bem escrito. Mas a forma, ainda que impecável, suave e bela, é o que menos aparece. Aparecem as emoções, densas, paupáveis. Você desnudou-se mesmo! Mas o fez atrás de uma cortina diáfana, que revela apenas a silhueta, preservando o pudor. Senti o impulso de entreabrir a cortina, perguntar quem vestiu o vestido pink (envólucro frágil da inocência), perguntar quem agora veste a indignação. Quem sao essas duas meninas? O que as distingue? O que as confunde? Mas não me atrevo. Nem é necessário. Manuscritos são brisa e vendavais que inevitavelmente, pouco ou muito, sempre afastam a cortina e expõem a pele nua. Basta continuar lendo...

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  2. Um prazer tê-lo aqui mergulhando, Jorge! Mergulhe sempre que quiser. O mar é meu, mas as emoções são compartilhadas. E sim, continue lendo! Vou adorar.

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Obrigada pela visita!
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Até mais!