segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Um raro pôr-do-sol de carnaval



Presentes são presentes. Mimos que recebemos. Gesto de carinho, ato de bem-querer, brinde em forma concreta do apreço que se tem. Simples, caros, raros, inusitados, criativos, excêntricos, divertidos. Ou simplesmente, presentes. Presentes que nos fazem sentir amados. Porque é assim que me sinto quando sou presenteada: amada. 

E é aí que entra a baleia. Não agora, daqui a pouco. Já chego lá. Um dia de carnaval. Acordo cedo. Compromisso seriíssimo: bloco carnavalesco logo às 8 da manhã. Tenho que me fantasiar, maquiar, fazer toda uma produção. Antes, um bom café-da-manhã, que é para começar bem o dia, o que todo folião bem cartilhado sabe. Daí, é partir para a folia.

Folia, encontro marcado com a alegria. Algo que no outro dia comentei. Mas até então, não tinha me soado estranho. Porém, de repente, a tomada de consciência. E daí em diante, já não é mais possível voltar atrás. E tudo muda o sentido. Cada coisa passa a ser percebida de outra forma. Não havia marchinha que fizesse brotar um sorriso sincero em meu rosto, depois disso. Não fui capaz também de perceber um sorriso verdadeiro em nenhuma face.

No carnaval da democracia, onde todos podem brincar nas ruas com as fantasias que podem ter, não havia verdade. Só encontrei máscaras. A alegria, coerentemente, não compareceu ao encontro de ninguém que a esperava ali. Com ela, não se marca hora. Com ela, ou se faz amizade e se é visitado de tempos em tempos, ou melhor esquecer. E esquecer mesmo, porque não é real achar que vai haver uma alegria súbita de um minuto para outro só porque alguém decretou que é carnaval. Não funciona assim.

E vestida da minha fantasia, rodei, pulei, dancei, o paço imperial testemunhando toda a festa. Aliás, quem de fato testemunha tudo, desde sempre, é aquela árvore. Pelo diâmetro do tronco, imagino o quanto de história ela presenciou. E agora, era observadora da minha marcha e das marchinhas daquele carnaval. Um carnaval de fusão de sons e profusão de cheiros. Odores que vão dos preparos de alimentos mesclados às escórias humanas, como num mercado medieval.

Passei assim de personagem a espectadora da cena. Estou nela. Mas já não interajo. Observo e já não ando, perambulo, em busca de algo palpável ao qual me agarrar. A sensação da desilusão coletiva caiu em mim e senti essa dor como se minha fosse. Lembrei-me da minha prima, com seu filhinho recém-nascido para cuidar, em casa. Gente feliz não tem nada o que fazer no bloco, foi o meu pensamento ao final. Afinal, o bloco é mesmo uma grande ilusão.


E assim, a quarta-feira de cinzas chegou antecipada. Tudo culpa da minha lucidez, que esse é meu mal, e porque preciso culpar alguém por sentir-me peixe tão fora d’água. Então, eu a culpo. E para me lavar de toda essa estranheza, voltei para casa antes da hora, muito antes do que havia programado. Queria voltar a ter a minha alegria, a mesma que perdi no bloco. Fazia-se urgente despir-me daquele vazio, ou encher-me de uma emoção que me bastasse, para compor minha alegoria. Precisava ir à praia, ver o mar, sentir-me peixe novamente.
 
 
Fui embora. E meu novo destino tinha um lindo sol a envolver meu corpo, a aquecer meu coração. Encontrei uma amiga lá, papeamos longamente, rimos à beça, tarde agradável. Sol se pondo, levantamos e fomos pagar a conta. Quando chega o presente para mim: corre uma menina, e grita ao pai, que há uma baleia na praia.


“Não, não vamos embora agora, tem uma baleia na praia!”. Ouvi minha amiga dizer:“Tá maluca? Acreditar em conversa de criança? Ela está brincando! Como teria uma baleia na praia?”. Eu sabia que não estava maluca, que a criança não estava fantasiando. Olhei ao redor e percebi várias pessoas em pé, à beira do mar, bem próximas da água, umas apontando a direção, todas olhando para o mesmo lado. Parei. Olhei também. Esperei. Havia mesmo uma baleia!

Ela nadava de um lado a outro. Esguichava água, mergulhava, emergia das águas novamente. Por dentro, chorei. Sabe quando você chora por dentro? Já sentiu isso? Era lindo, e a mim não era dado saber mais nada. Um espetáculo de dança intenso. Podia ser a dança do desespero dela em saber-se próxima da morte. Podia ser um espetáculo a anteceder a notícia de que será encontrada encalhada amanhã. Ou não ter significado triste nenhum. Talvez um filhote fazendo peraltices e que se desgarrou da mãe e chegou até ali. O ‘talvez’ pode assumir significados incontáveis, assim como o ‘se’. Mais uma vez, não sei muita coisa. Sei o que vi. E o que senti.

E vi um momento raro de vida ali. Senti que recebi um presente, num dia em que fui tomada por uma desesperança profunda, um vazio imenso no meio da multidão. O balé ao pôr-do-sol foi mágico. Praia inteira de pé, aos pés da maravilha que se apresentava. Não sei o que os outros pensaram ou perceberam, mas  eu senti a baleia tão próxima... Enviei-lhe um abraço, uma onda de amor profundo, temendo que tudo de tão lindo fosse fruto de sua agonia em querer voltar aos seus amigos, mas desejando que ela encontrasse seu caminho de volta, que eu encontrasse meu caminho de volta.

Agonia ou não, guardo em mim aquelas imagens. Céu em tons de rosa, já escurecendo, mar entre prata e azulado, navio iluminado no horizonte, pedra da Gávea em tom de azul, e ela. Mergulhando, esguichando, emergindo. Ela, mamífero no mar. Eu, peixe em terra firme. A alegria sorriu dentro do meu coração e me visitou. Presente da amizade que tenho com ela. Dessa vez, um presente raro. E foi assim que um mamífero do mundo das águas fez-me sentir peixe novamente.

Um comentário:

  1. A baleia não foi encontrada encalhada no dia seguinte. Dela não se tem notícia. Mas vive no mar, em águas de correntes frias, livre.

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