sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Cinema com batom



Adoro um bom papo. Minha mãe sempre diz que por mim, se o mundo acabar em conversa, está tudo certo. E está mesmo. Troco quase tudo por um dedo de prosa desses que lavam  e levitam a alma. Quase tudo porque nunca pensei no tema, de maneira que não posso afirmar com verdade, pois não sei se tudo é coisa demais ou se tudo é suficiente mesmo. O "tudo" à parte, fato é que adoro puxar uma conversa, desde muito pequena. Ainda não abandonei esse estranho hábito, que me provoca um prazer incrível: o de conhecer outra pessoa e interagir com seu modo único de processar vivências.

Assim, outro dia fui ao cinema. Bem, fui esta semana mesmo, mas o que vou contar aqui já deve ter uns 6 meses, ou mais, ou menos, sei lá. Um tempinho. Um tempão. Tanto faz. Fui ver um filme coreano que me chamou a atenção pelo nome: Poesia. Super bem falado, cult até não poder mais. Vesti-me toda despojadinha, cineminha de circuito bacaninha, tarde linda, lá fui eu.

Pipoca na entrada. Assim que o filme iniciou, achei meio lento. Passados 10 minutos, pensei que daí a pouco ia melhorar. Com 20 minutos, nada de eu achar o filme interessante. Aos 30, eu olhava o relógio sem parar, preocupada, pensando em quanto tempo faltava para o fim. Quando passou a primeira hora, já tinha na cabeça um novo título para o filme: "E a esperança vai para o ralo...". Mas essa mesma bendita esperança, lá do fundinho da caixa de Pandora, sorria indecentemente pra mim e pedia uma chance... fazia rodar na minha mente o desejo de que tudo iria melhorar na segunda metade. Aliás, era ali que estava a surpresa. Tudo aconteceria quando ninguém mais esperasse nada do filme. Era isso!

Para resumir: o filme acabou e eu esperando que 'Poesia' acontecesse na tela. Não aconteceu na tela nem em mim. Ah, sim, eu entendi o filme, claro! Mas não gostei. Com todas as letras, com til e ponto final. Porque nem ponto de exclamação merecia. Simplesmente um não gostei seco. E tudo poderia ter terminado assim. Com um levantar da poltrona e um café gostosinho, porque preciso alimentar meu vício, posto que, sendo humana, também tenho um, e confesso ser esta bebida divina, com um aroma que me soa a perfume mesmo. Mas deixemos de lado o café, que falo dele outro dia. Ia à cafeteria. Era neste ponto em que estava. Mas resolvi antes, ir ao banheiro.

E aí entra a minha mania de puxar conversa. Banheiro cheio, um monte de mulheres egressas daquele que considerava o pior filme dos últimos tempos, precisei saber se alguém tinha gostado. E eu estava certa de que, se houvesse alguém, seria talvez uma, no máximo duas pessoas. Lancei a pergunta à primeira que me pareceu vítima fácil, já que ninguém ali estava com cara de que queria conversa. Peguei a mulher desprevenida, talvez louca para que se desocupasse algum sanitário. Mas em menos de um segundo, inverti com ela o papel, pois a tal foi socorrida por todas as outras, que amaram o filme. E com uma ênfase que jamais entenderei, com um calor e análise crítica que eu precisaria de mais umas cinco outras vidas para assimilar.

Definitivamente não acredito até agora que tenham gostado. Sabe aquele tipo de gente chata, metida a gostar de tudo porque alguém disse que se tinha que gostar do filme? Só podia ser isso! E desataram a fazer seus relatórios, melhor, resenhas: excelente por isso, sensacional por aquilo outro, maravilhoso por tal motivo, singular em tal aspecto, e milhões de etecéteras de gente mega entendida. Não acreditei! Agora sim, com exclamação! Eu devia estar no banheiro com várias críticas de cinema, pensei! E me ferrei, ria por dentro. 

Quanto a mim, na verdade, achei a atuação da atriz sensacional. Fora isso, senti uma fadiga muscular enorme, que me desafiou o filme inteiro a continuar ali sentada até o final. Venci o desafio. Mas pela primeira vez uma poesia não me causou emoção. Só fadiga! E, quase desconcertada no banheiro, tudo culpa desse jeito de gostar de um papinho, disse apenas que não gostei, que não me causou emoção. Afinal, só a emoção me interessa. Nada mais. Retoquei então o meu batom. Sorri para mim mesma no espelho. Vi que lá dentro, em mim, existe autenticidade. E lá fui eu. Rumo à cafeteria e certa de que, poesia mesmo, é a vida inteira. O resto é papo. Ou, nem sempre, como se vê. 

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